Instituto Mexicano de Relaciones Grupales y Organizacionales
Mexican Institute of Group and Organizational Relations

PRÁTICAS GRUPAIS - ANÁLISE COMPARATIVA

Osvaldo Saidon et al.

(Práticas Grupais, Editora Campus, Rio de Janeiro, 1983)

PROGRAMA DE FORMAÇÃO DE COORDENADORES DE DINÂMICA DE GRUPO / 
PROGRAMA DE FORMACION DE COORDINADORES DE DINAMICA DE GRUPO

Procuraremos assinalar as diferenças e semelhanças que surgem entre as escolas psicoterápicas, através da análise das entrevistas. Para tanto, utilizaremos o mesmo guia de indicadores que nos orientou para a análise das entrevistas por escola. 

a) Em relação ao aspecto ideológico que se veicula através das teorias subscritas por qual mecanismo ele se realiza e reproduz. 

A comparação entre as Escolas Psicodramática e Transacional nos oferece uma série de considerações interessantes sobre esse tópico. Por um lado, o fato da Escola Psicodramática ter se desenvolvido a partir de uma crítica ao intelectualismo, com ênfase na espontaneidade, a levou a uma certa vulgarização e concretude conceitual, que surpreende às vezes pela pobreza e esvaziamento reflexivo sobre os próprios conteúdos
teóricos que possuem ou poderiam possuir seus praticantes. Por outro lado, a Análise Transacional não se preocupa pelo aspecto racionalizante que o ato terapêutico poderia favorecer. Já vimos como essa psicoterapia transcorre com o uso das noções próprias da teoria. Isto contribui para que a utilização dos jogos, ao contrário do que ocorre no Psicodrama - onde são produto da espontaneidade -, se dê através de regras e normas claramente delimitadas. Há uma programação estrita dos passos a serem seguidos, e mesmo de certas respostas, havendo condicionamentos característicos de um Empirismo Positivista, levado ao seu máximo extremismo. Esta concepção os leva a dizer que "os estados do eu são realidades objetáveis (sic)", procurando com isso afirmar uma "cientificidade" contrária às outras técnicas, que acusam de
subjetivistas e sem condições de demonstração empírica. Por outro lado, como vimos, os modelos hierárquicos, tomados da ideologia da livre empresa, são aceitos sem a mínima crítica, o que reflete uma concepção da patologia como a inadaptação a uma situação dada. 

Em geral podemos observar, através das entrevistas, que os representantes de todas as escolas, sem exceção, evitam demonstrar qualquer inquietude de ordem epistemológica sobre os problemas da produção teórica ou sobre as formas que adquire sua realização técnica. Em relação aos problemas metodológicas da teoria que subscrevem, as respostas são evitativas e o discurso sobre esse aspecto é restrito e restritivo. 

No caso, por exemplo, da terapia gestáltica, que supostamente basearia sua prática em uma das escolas mais desenvolvidas da Psicologia contemporânea, as entrevistas revelam um pobre conhecimento da teoria subscrita e uma peculiar interpretação desta, resultando em uma confusa prática terapêutico-pedagógica.  Na Gestalt, a palavra de ordem, muito mais do que cientificidade, é "criatividade". Esta autoriza a utilização de uma série de técnicas no trabalho grupal, onde a intuição do terapeuta é o valor supremo. 

b) Em relação à identificação e descrição da demanda da saúde mental. 

Os terapeutas do Psicodrama propõem a criação de clínicas sociais nos subúrbios, com atendimento economicamente acessível. Justificam essa proposta por descrer do papel social das instituições públicas, devido aos entraves burocráticos e administrativos que as mesmas apresentam. 

Por sua parte, aqueles que trabalham com Análise Transacional também vêem perspectivas de realização prática através do atendimento privado, porém com um esquema empresarial. Por exemplo, como vimos, mencionam a tentativa de criação com fundos de diferentes empresas para possibilitar o sofisticado e custoso uso de recursos que exigiria o tratamento da esquizofrenia.  Os representantes desta escola não
mostram nenhuma preocupação pelos elementos ideológicos que envolvem a análise da problemática em saúde mental. Consideram essas questões do ponto de vista da falibilidade administrativa e assinalam também a falta de recursos técnicos e a formação inadequada dos profissionais. 

Os gestaltistas já mostram uma posição francamente pessimista em relação à questão. A sociedade é situada externamente e, para eles, o contexto social parece estático e imutável. Uma das frases registradas enfatiza bem essa posição: "afinal não vou trabalhar em favela, não ganho para isso". Parece que a maioria das Correntes de Potencial Humano, pelo menos como se desenvolvem em nosso meio, compartilham a
idéia segundo a qual, através da liberação das emoções, certo nível de saúde poderia ser adquirido, passando ao largo das diferenças sociais. 

c) Em relação à prática da terapia individual e grupal e o "locus" de cada uma. 

Todos os entrevistados coincidem em opinar sobre a importância de desenvolver trabalhos com grupos nas instituições, mas colocam diversos inconvenientes para sua efetivação. Os rogerianos, por exemplo, mencionam tentativas de experiências institucionais com grupos, mas estas são consideradas insatisfatórias porque as características institucionais não permitem o rendimento desejado.  Desenvolvem sua crítica
baseados em sua ideologia antiautoritarista, mas sem explorar as determinações finais desse autoritarismo, inclusive no campo específico da saúde mental. 

Os terapeutas do Psicodrama defendem a psicoterapia grupal, que é o espaço, aliás, onde desenvolvem predominantemente sua prática. Apesar disso, chama atenção o pouco desenvolvimento conceitual acerca da grupalidade, que vêem reduzida a um público que se identifica de diferentes modos com a proposta 

os terapeutas transacionais vêem uma sequência entre a Terapia Individual e a Grupal. O grupo segundo sua orientação é uma entre as várias experiências a serem realizadas visando ao tratamento individual. O grupo é uma experiência onde o indivíduo o enfrenta como a um inimigo, que convida à patologia, e do qual terapeuta e integrantes devem sair vitoriosos. O grupo é, assim, algo que deve ser dominado, segundo o critério da manipulação gerencial, evitando-se a perspectiva de um espaço solidário e de cooperação. 

Quanto à Gestalt, o grupo funciona como pano de fundo do trabalho realizado com cada integrante. Não interessa a dinâmica grupal, e os participantes do grupo, quando participam, o fazem colaborando com o paciente que está sendo trabalhado. 

Os rogerianos valorizam o trabalho grupal, mas dizem encontrar-se com a dificuldade "das pessoas que não querem tratar-se em grupo". essa mesma dificuldade mencionam os terapeutas de orientação analítica.  Isto é um bom exemplo de como, neste campo, as características do mercado organizam o tipo de prática que se realiza e determinam seus avanços e retrocessos. 

d) Em relação aos critérios de seleção e de formação dos terapeutas de grupo. 

Para os terapeutas transacionais, sua função implica um "ser saudável, inteiramente saudável, dentro do grupo". ou seja, a formação e a eleição dos futuros terapeutas passam pela identificação com os critérios de saúde da instituição, quando o terapeuta fala a linguagem da Análise Transacional o que importa não é a formação, ou os antecedentes do candidato-sujeito, mas a identificação plena com os postulados
técnico-ideológicos. Se essas características tendem a ser revisadas por outras escolas, entre os terapeutas transacionais são assumidas sem nenhum conflito e levadas até a caricatura, na proposta de um homem são, como o self-mad man no estilo americano. 

Na escola gestaltista estão praticamente ausentes os critérios. O fundamental ali é a flexibilidade, a intuição e a maleabilidade de cada estudante frente à técnica, o que daria condições para desenvolvimento de sua criatividade. 

Os rogerianos definem sua clientela para formação por uma identidade negativa: não aceitam os psiquiatras no curso que oferecem, ou seja, os concorrentes fortes dos psicólogos no mercado da psicoterapia. 

No caso da instituição psicodramática, a semelhança com a estrutura formal das organizações psicanalíticas é interessante. Adotam, inclusive, as mesmas siglas nas diferentes instituições (por exemplo, Associação Psicodramática do Rio de Janeiro e Associação Brasileira, equivalente às denominações das Associações Psicanalíticas ligadas à Internacional, que existem no Rio de Janeiro).  Uma série de preocupações, que tem
sua origem no complexo aparelho formativo que institui a prática psicanalítica, permeia a instituição psicodramática. Desenvolvem, como a instituição psicanalítica, um trabalho em prol da sua institucionalização psicanalítica, um trabalho em prol da sua institucionalização, a criação de regionais, federações, representação e ligação organizacional com as sociedades internacionais etc. Na Escola Psicodramática, o critério predominante na formação é a existência de uma análise prolongada e cuidadosa, que preserve os candidatos de uma aplicação selvagem das técnicas. 

No caso da Escola Psicanalítica, vemos como persiste, a partir da abertura ao campo grupal, um temor à perda das estruturas largamente instituídas. No entanto, é interessante assinalar que esta instituição, por sua antiguidade e prestígio, serviu de modelo de organização formativa a várias outras orientações e é a única a levantar questionamentos críticos sobre os distintos problemas que suscitam, por exemplo, a análise didática, a supervisão, o seminário de formação, etc. Em geral, as escolas aceitam os modelos de funcionamento com certa ritualização dos mesmos, e os utilizam sem maiores questionamentos. Em alguns casos, aproxima-se do caricatural, como na Escola Transacional. A Escola Psicanalítica, na medida em que sua própria prática se dirige a uma mobilização do campo desejante, devendo instalar (conseguindo-o ou não) um desejo de saber a verdade no processo formativo, abre periodicamente em seu próprio seio crises que questionam os princípios institucionais enquanto imobilizadores e cristalizadores de qualquer tendência renovadora. 

Através das entrevistas com os psicanalistas e consultas da bibliografia local sobre o tema, no entanto, se repete uma espécie de cavalo-de- batalha para enfrentar esses questionamentos, o que se traduz em poder colocar uma prática de Análise Grupal, mantendo simultaneamente intacta a infalibilidade da Análise Individual. É essa a afirmação compartilhada por todos: que "o grupo não é uma verdadeira análise". Assim, a questão dos grupos permite uma metabolização das críticas e realização de certos questionamentos, desde que fiquem reservadas a teoria e a técnica, inalteradas e marcadas institucionalmente, para a "verdadeira" Psicanálise Individual, com muitas sessões semanais e economicamente onerosa. 

Neste sentido, é significativo que a Associação de Psicoterapia de Grupo, dirigida por psicanalistas que pertencem à Associação Psicanalítica chamada "oficial", se permita uma atitude mais militante no campo da saúde mental e suas instituições e uma crítica aguda à instituição da Psicanálise, à qual ela mesma, de fato, está ligada. 

Para reforçar essa afirmação, comentaremos alguns aspectos do Simpósio de Psicoterapia Analítica de Grupo, desenvolvido durante o ano de 1980 e organizado por uma das organizações psicanalíticas de grupo que existem em nosso meio, do qual participamos como assistentes em função do trabalho de campo. 

Ali pudemos observar claramente que as chamadas "instituições oficiais psicanalíticas", que até há pouco tempo mantinham uma postura exclusivamente voltada para um círculo restrito de membros, mostram agora uma tendência francamente agressiva de abertura e ampliação, no que diz respeito a atividades paralelas.  Isto é curioso porque os cursos de formação psicanalítica continuam mais ou menos fechados, custosos e sem divulgação, mas as chamadas atividades paralelas (por exemplo, curso de formação de psicoterapeuta de grupo) dão a entender que a sociedade está aberta em todos os sentidos. Os psicanalistas presentes ao aludido simpósio se limitaram, em geral, a falar de suas experiências, recolocando questões técnicas, onde a reflexão teórica e política foi praticamente nula. 

Um dos aspectos abordados, ainda que em muitos casos de forma superficial e simplista, foi a questão de saber se a Psicoterapia de Grupo é psicanalítica ou não. Novamente foi possível escutar ali algumas observações do tipo: "o nível de conscientização alcançado na Terapia Grupal é insuficiente em relação à Análise Individual"; "há dificuldades que impedem uma boa análise da transferência nos grupos" etc.  Esse discurso demonstra a insistência, nos meios "oficiais", em manter com a Psicanálise Individual os únicos títulos de autenticidade. Esta política, muito menos do que pretender reexaminar as questões teóricas específicas dos grupos, traz como conteúdo uma proposta de obstaculizar o aspecto transformador que a abertura das próprias instituições de Psicanálise de Grupo promovem. 

Na linha que vimos manifestar-se no simpósio, faremos menção a um trabalho de Antonio Dutra Júnior, surgido em um dos raros livros sobre Psicanálise de Grupo escrito em nosso meio. Em um artigo denominado "Ensino e Treinamento na Psicoterapia Analítica de Grupo e na Psicanálise", o autor começa afirmando que "a liberdade que predomina no treinamento dos terapeutas de grupo" - liberdade que parece
preocupá-lo - "se deve ao fato de que os grupos se formam desde o amanhecer do homem na Terra e que continuarão a existir enquanto o homem viver". Essa anarquia, que predominaria no trabalho com grupos, é contida em seus possíveis efeitos nocivos sobre a Psicanálise, procurando o autor deixar claro, ainda que sem maiores justificativas teóricas, as limitações do grupo enquanto prática verdadeiramente psicanalítica. 

O autor parte de uma série de considerações sobre as perspectivas com as quais se deve abordar a Psicoterapia de Grupo, baseando-se nas idéias de Foulkes e Bion, transcrevendo como proposta de formação teórica os programas das escolas de Psicoterapia de Grupo da Grã-Bretanha e Argentina. Neste sentido, expõe as dificuldades de formação em relação a uma série de aspectos puramente psicológicos,
quer estes se manifestem pelo tipo de personalidade do candidato, quer pelas características que tomam as relações institucionais. Esta dimensão institucional é abordada desde uma perspectiva psicologista, que menciona a presença de inveja, ciúme, competência, rivalidade e idealização, que poderiam ir sendo superadas, à medida que são interpretadas ao candidato. 

Na formação não interviria, portanto, para o autor, o institucional, enquanto implica uma série de relações reais de poder, de intercâmbios econômicos de irradiação ideológica, de enfrentamentos entre diferentes posições teórico-técnicas etc. Parece que a realidade em que se efetua o processo de formação permanece entre parênteses, realidade esta que às vezes o grupo convoca perigosamente. 

Toda a ênfase posta sobre características de personalidade (sem nunca esclarecer muito bem quais são) que deve ter o psicoterapeuta de grupo e o individual se justificam em relação à defesa da instituição psicanalítica chamada "oficial", muito mais do que a partir da defesa de postulados teóricos da prática da Psicoterapia e dos princípios psicanalíticos. 

As observações que realizamos a respeito das escolas não são, evidentemente, conclusivas em relação aos tópicos a que se referem, uma vez que as entrevistas não foram suficientemente exaustivas quanto à análise das instituições formativas. 

Procuramos contornar esta aparente deficiência escolhendo ente os entrevistados aqueles que têm um papel dirigente nas escolas de formação das diferentes tendências que estudamos. Do mesmo modo, as escolas foram as mais representativas, em termos de difusão, no Rio de Janeiro. Ainda sobre as escolas diríamos que, no caso da Psicanálise, procuramos representantes das chamadas escolas oficiais, aquelas que mais psicanalistas formaram até hoje, e que constituem ainda, por esse motivo, o discurso pedagógico mais influente. Por isso, deixamos de analisar as instituições "não-oficiais", cujos trabalhos, em maior ou menor grau, dependendo das propostas de cada uma, são bastante interessantes e apresentam um crescimento significativo. 

O valor que damos a estas observações é o que surge a partir de uma mostra que pode ser considerada como emergente das posições predominantes no campo da Psicoterapia de Grupo em nosso meio, em relação às hipóteses que levantamos em nosso trabalho. Cremos que as observações surgidas das diferentes entrevistas, além de estarem significativamente em acordo com nossas hipóteses, colocam um material válido para uma crítica produtiva, que contém subsídios para a formação e realização de uma política transformadora do movimento psicoterapêutico de grupos em nossa realidade.

EXIT  / SALIDA

ii 2016
x 2013

vi 1999