Instituto Mexicano de Relaciones Grupales y Organizacionales
Mexican Institute of Group and Organizational Relations

ESTUDAR, APRENDER, ENSINAR: ALGUMAS REFLEXÕES

Paulo Freire
 

O homem deve ser o sujeito de sua própria educação. Não pode ser o objeto dela!

O que significa ser sujeito no processo educativo? E, ao contrário, o que significa ser objeto? 

Como sujeito, o ser humano ‚ um agente empenhado na busca de si mesmo, na busca de ser mais (não confundir com ter mais!), que estuda movido pela curiosidade, pela necessidade de achar respostas para as inúmeras perguntas que ocupam sua mente, que aprende na medida em que reflete sobre essas perguntas e o mundo com a visão crítica de que tem consciência das limitações do saber humano. É um ser criativo,
também porque não, às vezes, o que ele próprio disse e/ou escreveu no passado. 

Como objeto, o indivíduo é algo assim como uma esponja que deve ser embebida com os ensinamentos "certos", um "certo" passivo, no máximo, receptivo. Alguém cujo protótipo seria uma espécie de máquina perfeita. Não questiona, não critica, não cria: repete e reproduz o que lhe foi "ensinado". É conformado, é ajustado e, muitas vezes, definido como "equilibrado". No entanto, embora talvez muitos poucos o percebam, é um ser de altíssima periculosidade, já que, na medida em que abdica da condição de sujeito de sua educação, abdica igualmente daquilo que fundamentalmente o caracteriza como humano, ou seja, da possibilidade de fugir aos estereótipos e da rigidez de padrões comportamentais pré-estabelecidos. 

Quando os seres humanos são vistos como sujeitos em educação, estudar, aprender e ensinar constituem três aspectos de um mesmo processo em que se engajam professores e alunos, educadores e educandos.  Certamente isto nada tem a ver com a prática autoritária (infelizmente tão familiar a todos nós) em que o educador é visto como o dono do saber que deve doar aos alunos e estes como, por assim dizer, "donos da ignorância", que poderão reduzí-la na medida em que absorvem o que lhes dita o mestre...  Quando o educando é sujeito de sua educação, o educador se apresenta como apenas um dos recursos de aprendizagem com que pode contar aquele, à disposição de quem colocará o seu saber relativo. Dentre dessa perspectiva, o aluno aprenderá tanto mais as respostas aos seus questionamentos, quanto mais for além do saber relativo que lhe é transmitido. 

Quando, porém, as pessoas são tomadas como objetos, a educação tornando-se uma prática domesticadora e coercitiva, a ênfase deixa de ser sobre o que o indivíduo é para repousar sobre aquilo que ele deve tornar-se. É suposto um modelo ao qual ele deve ser ajustado para melhor desempenhar sua função social, sendo esta, evidentemente, definida por outrem. Há uma preocupação muito grande com o que ele faz, e o
que ele sente e pensa só é importante na medida em que se traduz em ações. O educador é suposto um "domesticador" e investido de muito poder em relação aos educandos, que devem receber passivamente aquilo que lhes é dado. Nesse contexto, todo aquele que tenta assumir uma postura de sujeito, que se diferencia da média em função de sua capacidade de crítica, de sua criatividade, enfim, todo aquele que ousa
ser diferente, é visto como um "desajustado" ou como um "desadaptado" e a ele se dirigem as atenções dos que circundam na tentativa - muitas vezes bem intencionada - de "reconduzí-lo à normalidade. 

Infelizmente entre nós vigoram com muita intensidade a educação autoritária, a visão do educando como objeto e as práticas condicionadoras, contrapondo-se violentamente às iniciativas daqueles educadores e educandos que buscam ser mais, realizar-se, ser agentes no processo social. É surpreendente e muito animador, no entanto, que ainda haja pessoas que, apesar de submetidas a anos e anos desse processo de
"domesticacão", continuem curiosas e criativas, que analisem, critiquem, proponham e ainda possam prestar sua contribuição às tentativas de solução dos problemas da existência humana.

EXIT  / SALIDA

ii 2016
x 2013

vi 1999