Instituto Mexicano de Relaciones Grupales y Organizacionales
Mexican Institute of Group and Organizational Relations

SISTEMA E EQUILÍBRIO DOS FLUXOS

G. Amado & A. Guittet


PROGRAMA DE FORMAÇÃO DE COORDENADORES DE DINÂMICA DE GRUPO /

PROGRAMA FOR THE FORMATION OF FACILITATORS OF GROUP DYNAMICS


A dinâmica da comunicação nos grupos, Zahar, Rio de Janeiro, 1982


O desenvolvimento da Física, da Biologia, das Ciências Sociais mostra cada vez mais a criação de modelos, de princípios e leis cujo objeto está ligado às relações e interações existentes entre um todo e as partes que o compõem.  As mesmas analogias podem ser encontradas em campos diferentes, pois os mesmos princípios de organização regem conjuntos que dizem respeito à Termodinâmica, à Genética, aos organismos vivos.  Esses princípios, muitas vezes tirados da Cibernética (teoria dos mecanismos de controle) estão baseados em conceitos que exprimem processos de regulagem entre os elementos de um conjunto e as ligações desse conjunto com o meio ambiente.

O que é um sistema?

Um sistema pode ser identificado como um conjunto de órgãos diferenciados em inter-relação uns com os outros.  Esse conjunto possui uma fronteira visível com o meio ambiente.  Pode manter sua identidade e coerência através de modificações.  É capaz de homeostasia.

Em primeiro lugar, um sistema não é a soma de seus elementos, e a análise formal de segmentos artificialmente isolados não permite que se compreenda seu funcionamento.  Em Fisiologia, por exemplo, seria difícil estudar o papel de um órgão sem procurar conhecer suas relações com a conjunto do organismo.  Da mesma forma, a compreensão da ação de um grupo não pode reduzir-se à pesquisa das características dos indivíduos que compõem esse grupo.

Todo sistema recebe do meio ambiente fluxo de matéria, de energia, de informações.  A observação mostra que os elementos do sistema mudam constantemente, mas que a estrutura permanece idêntica: assim, nos sistemas biológicos, os elementos constituintes da célula (as diversas moléculas) podem mudar de modo permanente, mas a célula permanece idêntica.  Da mesma forma na sociedade, os indivíduos mudam, desaparecem, mas o caráter da sociedade permanece o mesmo.

Os sistemas estão num meio ambiente que é a série de todos os objetos cuja modificação de propriedades afeta o sistema, mas também de todos aqueles cujas propriedades são afetadas pelo comportamento do sistema.  Num sistema há pois constantemente uma troca com o meio ambiente.  O sistema é atravessado por diversos fluxos, mas os equilíbrios permanecem constantes.  As noções de fluxo e de equilíbrio são aqui primordiais.

A teoria dos sistemas distingue dois tipos deles: os sistemas fechados e os sistemas abertos.

O sistema fechado não recebe mais energia do exterior.  Tende a evoluir para um estado de maior probabilidade.  O exemplo seria a reação química que se produzisse num recipiente hermético.  Com efeito, a organização (particularmente um sistema vivo) apresenta-se como um estado de forte improbabilidade, enquanto for baseada num equilíbrio, numa ordem entre diferentes elementos coordenados.  Ora, quanto mais complexo for um equilíbrio, menos oportunidade terá de aparecer e mais será submetido à "entropia", à tendência para evoluir para um estado de maior equilíbrio, pois a ordem é menos provável do que a desordem e é preciso mais esforço para criar a ordem.  Um sistema fechado tenderá pois a evoluir para um estado estático mais simples (o que corresponde a todas as degradações e à morte nos sistemas vivos). Essa lei geral pode também ser observada em todo sistema social, de modo que todo grupo que tende a preservar-se do meio ambiente, recusando as comunicações com o exterior, acha-se condenado à desordem, à degradação e ao desaparecimento. Ele recusará primeiro todas as diferenças, expulsará os membros que se desviarem, tenderá a homogeneizar-se e reduzirá suas tensões, aproximando-se de um estado de inércia no qual todos os elementos serão indiferenciados.  Há, pois, redução para uma ordem estática e uniforme.

Os sistemas abertos resistem ao crescimento da entropia (à uniformização) pela aceitação de energia e informações que vão constantemente recriar a ordem.  São abertos por serem atravessados por esses fluxos de energia, de informações necessárias à preservação de seu equilíbrio.  Uma organização apresenta, pois, um equilíbrio instável.  Só pode fazer trocas com o exterior ou então morrer, se não puder comunicar-se com o meio ambiente, pois é através dessas trocas que o sistema assegura seu equilíbrio e sua sobrevivência.  O meio ambiente é assim vivido como um conjunto de instruções a respeito da existência do sistema.  O conjunto das informações recebidas é decodificado em função do código particular definido pelo princípio de organização.  O sistema só aceita, efetivamente, as informações que estiverem de acordo com as características de seu princípio de organização.  Em troca, as reações do sistema afetam o meio.  Regulam-se, assim, interações contínuas que obedecem a um programa, a um "sentido".

O sistema aberto caracteriza-se por seu objetivo, por sua finalidade constante (princípio de equifinalidade) e por seus equilíbrios homeostásicos.

Todos os sistemas possuem propriedades homeostásicas.  A homeostasia é a propriedade pela qual os organismos mantêm a estabilidade no próprio interior das fronteiras do organismo ou do meio ambiente imediato: é um princípio de regulação.

Numa cadeia de acontecimentos em que A acarreta B, B acarreta C, C acarreta D, estamos num sistema de causalidade linear.  Se D remete a A, o sistema torna-se circular e aparece um fecho de retroação que permite que se entenda a regulação do sistema.  O exemplo mais simples é o de um aparelho de calefação dotado de um termostato: o frio não produz uma baixa de temperatura, mas desencadeia um processo de aquecimento.  O efeito exterior é assim anulado por um contra-efeito interno.  É o processo de feedback negativo que visa a correção de um desvio em relação à norma, com respeito ao programa inicial do sistema.

O feedback negativo é um processo que tende pois a conservar a finalidade do sistema e a anular as variações do meio ambiente, restabelecendo o equilíbrio de modo constante.  Através dessas propriedades, o sistema torna-se ultra-estável e invariante, diante das mudanças exteriores.

Os sistemas abertos podem também reagir através de um feedback positivo, pela retroação positiva, em vez de reduzirem a ação exterior.  Esta última se integra e amplifica o fluxo de entrada.  Por exemplo, num banco, os juros de uma aplicação somam-se aos capitais aplicados.  O efeito corresponde aqui a um fenômeno cumulativo que pode provocar o desequilíbrio do sistema, a transformação num equilíbrio mais estável ou a destruição do sistema.  O feedback positivo é pois uma regulação amplificadora.  Traz um novo estado de equilíbrio do sistema, amplificando o fluxo principal.  Essa regulação amplificadora cria desvios que levam à necessidade de encontrar um novo equilíbrio, uma nova ordem.  O sistema vai então adaptar-se e evoluir para estados cada vez mais complexos.  Essa crescente complexidade é acompanhada de uma diferenciação dos elementos no interior de um sistema.  Esses fatos se verificam em Biologia na teoria da evolução, que mostra que a evolução procede por três etapas: variação, seleção e conservação.  São também essas três etapas que se observam numa aprendizagem por ensaio-e-erro.

O feedback positivo cria um desvio, uma contradição e pode por isso obrigar o sistema a um novo equilíbrio.  Dessa forma, ele caracteriza todo organismo capaz de mudança.  Diferenciação e complexidade dos elementos constitutivos do sistema são as consequências diretas dessas variações.  Os sistemas evoluídos de equilíbrio complexo admitem uma grande variedade e neles as próprias relações internas são mais complexas.  Quanto mais variedades internas um sistema admitir, mas poderá responde de modo diferenciado e adaptar-se aos fluxos externos.  Por exemplo, um grupo homogêneo (muito normativo) só admitirá um tipo de resposta a um acontecimento, enquanto um grupo em que os papéis são diferenciados e as inter-relações numerosas se adaptará mais facilmente.  Essa observação deve ser relacionada com as estruturas de comunicações.  Quanto mais rígida for a estrutura, mais risco ela correrá de ser inadaptada e vulnerável.

Assim, uma organização burocrática dará uma resposta uniforme a qualquer perturbação organizacional.  A qualquer acontecimento que perturbe o fluxo de informação entre o sistema e o meio ambiente, ela responderá através de um feedback negativo.  Para proteger seu equilíbrio diante dos protestos dos usuários, por exemplo, produzirá uma nova regulamentação.  Uma outra organização tratará a perturbação organizacional e criará uma diferenciação: um serviço especial para tratar dos problemas de reclamações O sistema reagirá então através de uma diferenciação de suas respostas e pela criação de variedades em seu seio.

Quanto mais complexo um sistema se tornar, maior número admitirá de subsistemas que podem ser autônomos ou hierarquizados, mas a finalidade global e a coerência permanecem as mesmas.  A identidade do sistema permanece a mesma.  Por exemplo, uma sociedade pode diferenciar-se pela maior difusão da cultura, das informações, mas as relações dentro do sistema continuarão a ser idênticas.  Há criação de diferenciação e complexidade, mas as conexões entre os diversos subgrupos correspondem à lógica inicial do sistema.

A partir dessas noções gerais sobre os sistemas, é possível, como fez a escola de Palo Alto, pensar nas relações dentro de um grupo, segundo as regras dos sistemas.  Assim, numa família, o comportamento de cada um dos membros está ligado ao comportamento de todos os outros.  Todo comportamento se dá em comunicação.  Influencia os outros e é por eles influenciado.

O grupo familiar pode, então, ser assimilado a um conjunto que funcione como uma tonalidade e no qual as particularidades dos membros não bastam para explicar o comportamento do conjunto familiar.  Nesse sentido, Jackson mostra a importância da complementaridade dos comportamentos no grupo familiar: por exemplo, o estado de um membro da família considerado doente não pode destacar-se do contexto familiar.  Qualquer agravação ou qualquer melhora em seu estado acarreta reações na saúde dos outros membros da família.  Se um terapeuta trouxer um alívio para os males explicitamente  formulados por esse doente, os outros membros reagirão através de uma crise: a criança recupera o seu equilíbrio, mas na mãe aparecem perturbações psicológicas.  Se a mulher recobra a saúde, é o marido que apresentará perturbações.  Aqui é o sintoma que desempenha um papel de equilíbrio na estrutura do grupo familiar.  Qualquer intervenção externa nada mais pode fazer além de alimentar o sintoma, pois o grupo familiar filtra as informações para confortar-se na doença e preservar seu equilíbrio.

Existe aí uma regulação homeostática.  Um feedback negativo produz uma reação do grupo.  Há uma recusa de qualquer informação que ponha em jogo o equilíbrio do sistema.  O grupo familiar assemelha-se a um sistema fechado no qual as relações tendem a uma uniformização e à repetição dos comportamentos "patológicos".  Todos os membros do grupo recusam-se a evoluir e se mantêm num estado patológico, que corresponde a uma certa ordem no que se refere ao conjunto familiar.  É assim que as famílias perturbadas se mostram particularmente refratárias à mudança.  Somente uma compreensão do equilíbrio familiar e de sua finalidade pode trazer modificações.  A psicoterapia individual, a ação sobre um dos membros é insuficiente, pois um sintoma desempenha um papel equilibrador no conjunto do grupo familiar.

Uma família funciona como um sistema aberto quando aceita trocas com o exterior, quando os papéis dentro do grupo são diferenciados, quando ela admite uma diversidade de respostas ao meio ambiente. Apresenta então regulações homeostásicas (feedback negativo) mas também é capaz de aprendizagem: reintroduzindo desvios, os feedbacks positivos levam à busca (por ensaio-e-erro) de novos equilíbrios.

Assim, as mudanças internas (envelhecimento, maturidade dos filhos) e as mudanças externas (modificações do meio ambiente) não introduzem um reforço de sintomas (infantilização, superproteção dos filhos), mas são integradas num novo equilíbrio no qual os elementos do sistema conservam sua autonomia e suas relações com o conjunto.

Seria possível repetir essas análises para outros grupos sociais e mostrar assim que as comunicações são regidas pelas propriedades dos sistemas gerais: inter-relações dos elementos do sistema, finalidade do sistema, equilíbrio e organização, regulação (feedback positivo ou negativo), diferenciação e complexidade.  Todas essas noções podem ajudar a compreender os grandes princípios de organização e a analisá-los segundo modelos que são permanentes no mundo vivo.

EXIT

ii 2016
iii 1999