Instituto Mexicano de Relaciones Grupales y Organizacionales
Mexican Institute of Group and Organizational Relations

PESQUISA DE AÇÃO E PROBLEMAS DE MINORIA

Kurt Lewin

(1946)

PROGRAMA DE FORMAÇÃO DE COORDENADORES DE DINÂMICA DE GRUPO 

No último ano e meio, tive ocasião de manter contato com um grande número de organizações, instituições e indivíduos, que vieram pedir assistência no campo das relações de grupo.  Incluíam-se nesse número representantes de comunidades, sistemas escolares, escolas isoladas, organizações minoritárias de diferentes origens e objetivos; incluíam-se representantes de operários e administradores, departamentos
nacionais e estaduais do governo, e assim por diante.

Dois fatos básicos surgiram desses contatos: existe uma grande dose de boa vontade, de disposição para enfrentar o problema com franqueza e fazer realmente alguma coisa a respeito.  Se esta dose de séria boa vontade pudesse ser transformada em ação organizada e eficiente, não haveria perigo nas relações intergrupais nos Estados Unidos.  Mas é exatamente aqui que está a dificuldade.  Essas pessoas bem intencionadas sentem-se confusas. Sentem-se confusas por três razoes:  1. Qual é a situação atual?  2. Quais são os perigos?  3. E a mais importante, que vamos fazer?

Dirigimos um levantamento por entrevistas entre assistentes de relações intergrupais no Estado de Connecticut.  Queríamos conhecer sua linha de pensamento, sua linha de ação e as principais barreiras que encontravam.  Não poucos daqueles, cuja tarefa é exatamente a melhoria das relações intergrupais afirmaram que talvez o maior obstáculo ao seu trabalho seja sua própria falta de compreensão clara do que deveria ser feito.  Como se poderá combater a discriminação econômica e social, se pensarmos não em termos de generalidades, mas em termos dos habitantes daquela rua principal específica e daquelas ruas adjacentes que constituem a pequena ou grande cidade em que o assistente tem de realizar o seu trabalho?

Uma das consequências desta indefinição é a falta de padrões com que medir o progresso.  Quando o assistente de relações intergrupais, de volta da reunião de boa vontade que ajudou a promover, pensa nos dignatários que conseguiu mobilizar, dos inflamados apelos que ouviu, na impressionante decoração do palco e na excelência da comida, não se pode impedir de ficar exultante com a atmosfera geral e com as palavras de elogio dos seus amigos à volta.  Contudo, alguns dias depois, quando se tem notícia do próximo caso de discriminação, ele amiúde se pergunta se tudo não passou de falsa aparência e se ele procede corretamente ao aceitar o reconhecimento dos amigos como padrão de medida do progresso de seu trabalho.

Esta falta de padrões objetivos de consecução tem duas graves consequências:

1.  Priva os assistentes de relações intergrupais de seu legítimo desejo de satisfação em bases realistas.  Nessas circunstâncias, a satisfação ou insatisfação no tocante à própria consecução torna-se sobretudo uma questão de temperamento.

2.  Não pode haver aprendizagem num campo onde faltam padrões objetivos de consecução.  Quanto não podemos julgar se uma ação nos fez avançar ou regredir, quanto não temos critério para avaliar a relação entre esforço e realização, nada há que nos impeça de tirar conclusões erradas e de encorajar hábitos errados de trabalho.  Condição prévia de qualquer aprendizagem é a averiguação realista dos fatos e sua
avaliação.  A pesquisa social deveria ser uma das prioridades máximas do trabalho prático de aperfeiçoar as relações intergrupais.

CARÁTER E FUNÇÃO DA PESQUISA PARA A PRÁTICA DAS RELAÇÕES INTERGRUPAIS

A pesquisa necessária à prática social pode ser melhor caracterizada como pesquisa para administração ou engenharia social.  É um tipo de pesquisa de ação, uma pesquisa comparativa acerca das condições e resultados de diversas formas de ação social, e pesquisa que leva à ação social. Pesquisa que produza apenas livros não será o bastante.

Isto de maneira alguma implica que a pesquisa requerida seja, sob qualquer aspecto, menos científica ou "inferior" que a que se exigiria da ciência pura no campo dos eventos sociais. Estou inclinado a sustentar o contrário como verdade.  As instituições interessadas em engenharia, tais como o Instituto de Tecnologia de Massachusetts, voltaram-se cada vez mais para o que se chama pesquisa básica.  Também no caso da
engenharia social, o progresso dependerá grandemente da medida em que a pesquisa básica em Ciências Sociais possa propiciar uma compreensão mais profunda das leis que governam a vida social.  Esta "pesquisa básica social " terá de incluir problemas matemáticos e conceptuais de análise teórica.  Terá de incluir a gama toda de averiguação descritiva dos fatos no tocante a pequenos corpos sociais. Acima de tudo, terá de incluir experimentos de laboratório e de campo sobre a mudança social.

INTEGRAÇÃO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS

Uma tentativa de melhorar as relações intergrupais deve enfrentar uma grande variedade de tarefas.  Ela cuida de problemas de atitude e estereótipos, com referência outros grupos e ao próprio grupo visado, de problemas de desenvolvimento de atitudes e conduta durante a infância e a adolescência, de problemas de alojamento e de mudança de estrutura legal da comunidade; cuida de problemas de status e casta, de problemas de discriminação econômica, de liderança política e de liderança em muitos aspectos da vida comunitária.  Cuida do pequeno corpo social de uma família, de um clube ou de um grupo de amigos, do corpo social maior de uma escola ou sistema escolar, de bairros e corpos sociais do tamanho de uma comunidade, do Estado, da nação e de problemas internacionais.

Começamos a compreender que, sem considerar os demais é inútil atacar qualquer desses aspectos das relações intergrupais.  Isto também é válido para os aspectos práticos e científicos da questão.  Por sua vez, a psicologia, a sociologia e a antropologia cultural principiaram a dar-se conta de que, sem o auxílio uma da outra, nenhuma conseguiria ir muito longe.  Durante os últimos cinco anos, o desejo de um tratamento integrado se manifestou, timidamente de início, agora muito claramente.  Ainda não se sabe o que significará especificamente tal integração. É possível que signifique uma fusão das ciências sociais numa ciência social única.  De outro lado, pode significar apenas a cooperação de diversas ciências com o objetivo prático de aperfeiçoar a administração social.  Todavia, a próxima década testemunhará sem dúvida tentativas sérias de abordagem integrada da pesquisa social.  Sou da opinião de que a Economia terá de ser incluída nessa sinfonia, se quisermos compreender e manejar de forma mais eficiente as relações intergrupais.

DOIS TIPOS DE OBJETIVOS DE PESQUISA

É importante compreender claramente que a pesquisa social se preocupa com dois tipos de problemas assaz diferentes, a saber, o estudo das leis gerais da vida grupal e o diagnóstico de uma situação específica.

Os problemas de leis gerais tratam da relação entre condições possíveis e resultados possíveis.  Exprimem-se em proposições do tipo "se assim for".  O conhecimento das leis pode, em determinadas condições, servir de guia para a consecução de certos objetivos. Todavia, para agir corretamente, não basta que o engenheiro ou o cirurgião conheça as leis gerais da física ou da fisiologia.  Carece também de conhecer o caráter específico da situação em apreço.  Esse caráter é determinado por uma averiguação científica de fatos denominada diagnóstico.  Em todos os campos de ação, ambos os tipos de pesquisa científica são necessários.

Até pouco tempo, os levantamentos predominavam, em grande parte, na averiguação de fatos das relações intergrupais.  Hoje, os vemos com olhos críticos.  Embora sejam potencialmente importantes, têm utilizado, via de regra, métodos assaz superficiais de escrutínio, e não a pesquisa mais profunda, do tipo de entrevistas, usada por Likert, a qual nos proporciona certo discernimento das motivações subjacentes aos sentimentos expressos.

A segunda causa de insatisfação é a crescente compreensão de que não basta o simples diagnóstico – e levantamentos constituem uma forma de diagnóstico.  Nas relações intergrupais, como nos outros campos da administração social, o diagnóstico tem de ser complementado por estudos experimentais comparativos da eficiência das diversas técnicas de mudança.

A FUNÇÃO E A POSIÇÃO DA PESQUISA NO PLANEJAMENTO E NA AÇÃO SOCIAL

Para o conteúdo da pesquisa sobre relações intergrupais, a sua localização adequada dentro da vida social tem pelo menos igual importância.  Quando, onde e por quem deve ser feita a pesquisa social?

Como estamos interessados aqui em administração social, examinemos um pouco mais de perto o processo de planejamento.

Geralmente, o planejamento parte de algo assim como uma idéia geral.  Por qualquer razão, parece conveniente atingir determinado objetivo.  Frequentemente, não fica muito clara a maneira exata de como definir esse objetivo, e de como atingi-lo.  O primeiro passo, então, é examinar a idéia cuidadosamente à luz dos meios disponíveis.  Amiúde, torna-se necessária maior averiguação dos fatos. Se este primeiro período do planejamento é bem sucedido, surgem dois itens: a saber, um "plano global" de como atingir o objetivo e, em segundo lugar, uma decisão quanto ao primeiro passo da ação. Geralmente, este planejamento também tem modificado um pouco a idéia original.

O período seguinte é dedicado a executar o primeiro passo do plano global.

Em campos muito desenvolvidos de administração social, tais como a moderna administração de fábricas ou a execução de uma guerra, este segundo passo é seguido de certas averiguações de fatos.  Por exemplo, no bombardeamento da Alemanha, uma determinada fábrica pode ter sido escolhida como o primeiro alvo após cuidadosa consideração das várias prioridades e dos melhores meios e formas de tratar esse alvo.  A
ofensiva é realizada e imediatamente um avião de reconhecimento segue com o objetivo único de  eterminar a nova situação tão acurada e objetivamente quanto possível.

Este reconhecimento ou averiguação de fatos tem quatro funções.  Em primeiro lugar, cumpre-lhe avaliar a ação.  Ele mostra se o que foi atingido está acima ou abaixo da expectativa.  Em segundo lugar, proporciona aos planejadores uma oportunidade de aprender, ou seja, de obter uma nova compreensão geral, por exemplo, do poder e da fraqueza de certos recursos ou técnicas de ação.  Em terceiro lugar, tal averiguação de fatos deve servir de base para o planejamento correto do próximo passo.  Finalmente, vale como base para a modificação do "plano global".

O passo seguinte também se compõe de um ciclo de planejamento, execução e reconhecimento ou averiguação de fatos, com o fito de avaliar os resultados do segundo passo, para preparar a base racional de planejamento do terceiro passo e, talvez, para modificar novamente o plano global.

A administração social racional avança, portanto, numa espiral de fases, cada uma das quais se compõe de um ciclo de planejamento, ação e averiguação de fatos referentes ao resultado da ação.

Com isto em mente, examinemos por um momento a maneira pela qual têm sido tratadas as relações intergrupais.  Não posso deixar de sentir que a pessoa que volta da realização bem sucedida de uma reunião de boa vontade é como o capitão de navio que sentiu, de alguma forma, que seu barco se desviou demais para a direita e que, por isso, voltou a roda do leme bruscamente para a esquerda.  Certos sinais dão-lhe a certeza de que o leme acompanhou o movimento da roda do leme. Ele vai jantar, feliz da vida.  Enquanto isso, naturalmente, o barco fica a mover-se em círculos. Com muita freqüência, no campo das relações intergrupais, a ação se baseia em observações feitas "de dentro do barco" e muito raramente se funda em critérios objetivos no tocante às relações do movimento do barco com o rumo do objetivo a ser alcançado.

Precisamos de reconhecimento que nos mostre se estamos na direção certa e com que velocidade nos movemos.  Socialmente, não basta que as organizações universitárias propiciem nova compreensão científica.  Será preciso estabelecer processos de averiguação de fatos, olhos e ouvidos sociais, bem no interior dos corpos de ação social.

Não é nova a idéia de departamentos de pesquisa ou averiguação de fatos em órgãos dedicados à melhoria das relações intergrupais.  Todavia, algumas delas pouco mais fizeram que não fosse colecionar recortes de jornais.  Os últimos anos viram surgir uma série de progressos muito significativos.  Há cerca de dois anos atrás, o Congresso Judaico-Americano estabeleceu a Comissão de Inter-relações Comunitárias.  Trata-se de uma organizado de pesquisa de ação, ideada principalmente para funcionar como uma organização de serviços para organismos judaicos e não-judaicos no campo das relações intergrupais.  Seu principal interesse está na abordagem de grupo, comparativamente à abordagem individual, de um lado, e a abordagem de massa, por via do jornal e do rádio, de outro.  Estas duas últimas e importantes linhas constituem o foco de atenção da unidade de pesquisa do Comitê Judaico-Americano.

Diversos programas, tais como o do Conselho Americano de Educação, do Estudo Universitário de Relações Intergrupais nas escolas normais, no Estudo de Educação Cívica, em Detroit e, de uma forma mais global, o do Centro de Educação Intercultural, procuram utilizar nosso sistema educacional para melhoria das relações intergrupais.  Todos mostram crescente sensibilidade em prol de um método mais realista, isto é, mais científico, de avaliação e auto-avaliação.  Em diferentes graus, ocorre o mesmo nos empreendimentos especificamente dedicados a relações entre negros e brancos, tais como o Conselho Americano de Relações Raciais, de Chicago, a Liga Urbana e outros.  É significativo que a Comissão Estadual Contra a Discriminação do Estado de Nova Iorque tenha uma subcomissao de cooperação com projetos de pesquisa
e que a Comissão Inter-racial do Estado de Connecticut esteja ativamente empenhada em pesquisas.  A recente criação de grandes instituições de pesquisa em universidades também ajudou a ampliar as perspectivas de muitas das organizações de ação existentes, tornando-as mais confiantes nas possibilidades de utilizar técnicas científicas para seus fins.

Não posso absolutamente tentar, sequer sob a forma de um levantamento, discutir os muitos projetos e resultados que vêm surgindo desses empreendimentos de pesquisa.  Eles incluem levantamentos dos métodos que foram aplicados até agora, tais como os registrados em Ação para a Unidade; estudos de desenvolvimento de atitudes em crianças; estudos da relação entre atitudes intergrupais e fatores como a
crença política do indivíduo, sua posição dentro do grupo; experimentos acerca de como reagir da melhor forma num caso de agressão verbal em termos de preconceitos; experimentos de mudança com bandos de delinquentes e com comunidades; o desenvolvimento de muitos novos testes de diagnóstico; e por fim, embora não menos importante, o desenvolvimento de teorias mais precisas de mudança social.  Muitos dos
resultados desses projetos ainda não foram publicados.  Estou certo, porém, de que os próximos anos testemunharão o aparecimento, em número sempre crescente, de estudos significativos e práticos.

EXEMPLO DE UM EXPERIMENTO DE MUDANÇA DE PROBLEMAS DE MINORIA

Um exemplo pode ilustrar as possibilidades de cooperação entre clínicos e cientistas sociais.  No início deste ano, o presidente da Comissão Consultiva de Relações Raciais do Estado de Connecticut, que também é membro dirigente da Comissão Inter-racial do Estado de Connecticut, procurou-nos para pedir que dirigíssemos um seminário para cinquenta assistentes de comunidade, no campo de relações intergrupais, vindo de todos os rincões do Estado de Connecticut.

Surgiu um projeto em que cooperaram três organizações: a Comissão Consultiva de Relações Raciais do Estado de Connecticut, a Comissão de Inter-relações Comunitárias do Congresso Judaico-Americano e o Centro de Pesquisas de Dinâmica de Grupo do Instituto de Tecnologia de Massachusetts.  A Comissão Consultiva Estadual é composta de membros da Comissão Inter-racial do Estado de Connecticut, de um membro do Departamento Estadual de Educação do Estado de Connecticut, e da pessoa encarregada na Região do Vale de Connecticut, da Conferência de Cristãos e Judeus.

Ao que parece, o Estado de Connecticut é o único a ter uma comissão Inter-racial em sua administração regular.  Ficou evidente que todo progresso de técnicas que se pudesse vincular a este corpo estratégico central teria muito melhor oportunidade de um amplo e duradouro efeito.  Depois de minuciosa discussão das várias possibilidades, foi planejado cooperativamente o seguinte experimento de mudança.

Recentes resultados de pesquisa mostraram que as ideologias e estereótipos que regulam as relações intergrupais não devem ser considerados como traços individuais de caráter; ao contrário, fundam-se em padrões culturais, sendo que sua estabilidade e mudança dependem em grande parte de acontecimentos em grupos como grupos.  A experiência com o treinamento para liderança convenceu-nos de que o estabelecimento de seminários está entre os instrumentos mais poderosos para possibilitar melhoria da capacidade de manejar relações intergrupais.

Mesmo um bom e bem sucedido seminário, entretanto, raramente tem oportunidade de induzir melhoramentos de longo alcance no campo de relações intergrupais. O indivíduo que volta do seminário para casa cheio de entusiasmo e novas perspectivas, terá de enfrentar novamente a comunidade, na proporção talvez de um contra 100 000.  Evidentemente, são grandes as possibilidades de que seu êxito não esteja à altura do seu novo nível de aspiração, e logo as decepções o forçarão a retroceder de novo.  Enfrentamos aqui um problema da maior importância para qualquer mudança social, a saber, o problema de sua permanência.

Para por à prova algumas hipóteses referentes à influência do indivíduo diante de contextos de grupo, introduziram-se as seguintes variações no seminário experimental.  Uma parte dos delegados veio como de costuma, um indivíduo de cada cidade.  Todavia, para um certo número de comunidades, decidiu-se tentar conseguir um certo número de delegados e, se possível, desenvolver no seminário equipes que, uma vez
terminado este, conservaria sua relação de equipe. Isto daria maior oportunidade de permanência no entusiasmo e produtividade do grupo e deveria também multiplicar o poder dos participantes de levar a cabo a mudança desejada.  Um terceiro grupo de delegados ao seminário receberia certa dose de assistência especializada, mesmo depois de os delegados voltarem à comunidade.

O primeiro passo para a realização de semelhante plano exige uma ampla averiguação de fatos acerca dos diferentes tipos de problemas intergrupais que as diversas comunidades têm de enfrentar.  As comunidades e as equipes de assistentes de grupo nas comunidades teriam de ser selecionadas de maneira que fosse possível comparar os resultados das três variações.  Em outras palavras, esse projeto teve de enfrentar os mesmos problemas que mencionamos como típicos do processo de planejamento em geral.

As experiências dos membros do Conselho Consultivo Estadual da Comissão Inter-racial do Estado de Connecticut puderam fornecer com presteza os dados necessários para determinar as cidades que deveriam ser estudadas mais cuidadosamente.  Para avaliar o resultado do seminário, seria preciso fazer um diagnóstico antes dele, a fim de determinar, entre outras coisas, a linha de pensamento dos assistentes de
comunidade, sua principal linha de ação e as principais barreiras que tinham de enfrentar.  Um novo diagnóstico semelhante teria de ser realizado alguns meses após o seminário.

Evidentemente, é preciso registrar cientificamente os acontecimentos essenciais durante o seminário para compreender por que ele provocou a mudança ou deixou de provocá-la.  Sinto que aqui a pesquisa enfrenta sua tarefa mais difícil.  De maneira alguma basta registrar o conteúdo da palestra ou o programa. A descrição da forma de liderança tem de levar em conta o teor de iniciativa demonstrado por indivíduos e subgrupos, a divisão em subgrupos dos treinandos, as facções dentro desses subgrupos e entre eles, as crises e seu desfecho e, acima de tudo, o padrão total de administração conforme muda de um dia para outro.  Mais do que qualquer outra coisa, estes aspectos de larga escala parecem determinar o que um seminário logrará realizar.  A tarefa que os cientistas sociais têm de enfrentar ao registrar objetivamente esses dados não é muito diferente da do historiador. Teremos de aprender a haver-nos com estas unidades relativamente grandes de períodos e corpos sociais sem baixar os padrões de validade e fidedignidade a que nos acostumamos no registro psicológico das unidades mais microscópicas de ação e de períodos de minutos ou segundos de atividade.

Os métodos de registro dos eventos essenciais do seminário incluíam uma sessão de avaliação ao fim de cada dia.  Os observadores que tinham comparecido às várias sessões de subgrupos registravam (num gravador) o padrão de liderança que tivessem observado, o progresso ou falta de progresso no desenvolvimento dos grupos, de um conglomerado de indivíduos a um "nós" integrado, e assim por diante.  Os líderes de grupo davam a sua opinião acerca das mesmas sessões e uma série de assistentes em treinamento acrescentavam seus comentários.

Fiquei profundamente impressionado com o extraordinário resultado pedagógico que essas reuniões de avaliação, ideadas com o propósito de registro científico, tiveram no processo de treinamento.  A atmosfera de objetividade, a disposição do corpo docente de discutir abertamente seus erros, longe de prejudicar-lhes a posição, parecia conduzir a um aprofundamento da compreensão e àquela disposição de serena objetividade que em lugar algum é mais difícil de atingir que no campo das relações intergrupais, o qual está carregado de emotividade e rigidez de atitude, mesmo entre os chamados liberais e entre aqueles cuja tarefa é promover relações intergrupais.

Quando observei, durante o seminário, os delegados vindos de diferentes cidades de todos os rincões de Connecticut se transformarem, de uma multidão de indivíduos sem ligações, frequentemente com opiniões e interesses antagônicos, em equipes cooperativas, não baseadas na amabilidade, mas na disposição de enfrentar realisticamente as dificuldades, de aplicar a averiguação honesta de fatos, e de trabalhar em
conjunto para vencê-las; quando vi surgir o padrão de desempenho de papel, percebi que as principais responsabilidades passavam lentamente, de acordo com o plano, do corpo docente para o discente; quando vi, na sessão final, a Comissão Consultiva Estadual receber o apoio dos delegados para um plano de vincular as escolas normais do Estado com certos aspectos das relações de grupo dentro das comunidades; quando ouvi os delegados e equipes de delegados das diversas cidades apresentarem seus planos para seminários municipais e uma série de outros projetos de realização imediata, não pude deixar de sentir que a estreita integração de ação, treinamento e pesquisa comporta enormes possibilidades no campo das relações intergrupais. Gostaria de infundir no leitor este sentimento.

As relações intergrupais constituem sem dúvida um dos aspectos mais decisivos do cenário nacional e internacional.  Sabemos hoje, melhor do que nunca, que são potencialmente explosivas.  A estratégia da pesquisa social precisa levar em conta os perigos envolvidos.

Poderíamos distinguir reveses e barreiras externas para a ciência social e os perigos internos dos métodos de pesquisa.  Entre os primeiros, encontramos um grupo de pessoas que parecem subscrever a idéia de que não precisamos mais da ciência social.  Entre estes admiradores do senso comum, encontramos clínicos de todos os tipos, políticos e reitores de universidade.  Infelizmente, existe entre eles um bom número de
cientistas físicos contrários à promoção intensa das Ciências Sociais.  Parecem sentir que estas não produziram nada de real valor para a prática da administração social e que, por isso, jamais o produzirão.  Acho que não haverá outra maneira de convencer tais pessoas que não seja produzir uma ciência social melhor.

Uma segunda ameaça à ciência social vem dos "grupos no poder".  Podem-se encontrar tais pessoas em todos os níveis da administração, entre lideres trabalhistas e políticos, em alguns setores do governo e entre membros do Congresso.  De uma forma ou outra, parecem todos possuídos do temor de não mais poderem fazer o que querem, se eles e os outros conhecerem realmente os fatos.  Acho que os cientistas sociais deviam ter o cuidado de distinguir entre os elementos legítimos e ilegítimos subjacentes a esse temor.  Por exemplo, seria sobremaneira danoso que os resultados dos levantamentos da Gallup determinassem automaticamente a decisão quanto ao que deveria ou não se tornar lei nos Estados Unidos.  Teremos de reconhecer a diferença entre averiguação de fatos e estabelecimentos de programas e estudar cuidadosamente os métodos pelos quais se deve introduzir a averiguação de fatos na máquina social da legislação, a fim de produzir um resultado democrático.

Indubitavelmente, contudo, por trás da hostilidade à pesquisa social manifestada por algumas das pessoas que detêm cargos de poder, existe boa dose de relutância em enfrentar a realidade.

Um terceiro tipo de ansiedade muito real por parte dos profissionais pode ser ilustrada pelo seguinte exemplo.  Os membros dos conselhos de comunidades aos quais tive ocasião de relatar os resultados da pesquisa sobre inter-relações de grupos, reagiram com o sentimento de que os cientistas sociais, na universidade ou no ramo de pesquisa de alguma organização nacional, mais cedo ou mais tarde estariam em condições de dizer aos assistentes de comunidade locais, em todos os Estados, exatamente o que fazer e o que não fazer.

Eles obviamente contemplavam uma "tecnocracia" da ciência social.  Esse temor parece ser um mal-entendido muito comum, baseado na palavra "lei".  Os assistentes de comunidade não alcançaram compreender que na ciência social assim como na ciência física, a legalidade significa uma relação do tipo "se assim for", uma conexão entre condições hipotéticas e resultados hipotéticos.  Tais leis não dizem que
condições existem localmente, num dado lugar em dado momento.  Por outras palavras, as leis não fazem o trabalho de diagnóstico, que deve ser realizado na localidade.  Tampouco preceituam a estratégia para a mudança.  Na administração social, como na medicina, o clínico terá usualmente de escolher entre diversos métodos de tratamento e precisará de tanta habilidade e engenhosidade quanto o médico, no que se refere ao diagnóstico e ao tratamento.

Para o progresso da ciência social, parece ser decisivo que o clínico compreenda que, através das ciências sociais e unicamente através delas, pode ele ter a esperança de obter o poder necessário para realizar um bom trabalho.  Infelizmente, nada há nas leis e na pesquisa social que constranja o clínico no rumo do bem. A ciência proporciona mais liberdade e poder tanto ao médico quanto ao assassino, tanto à democracia
quanto ao Fascismo.  Também com respeito a isso, deve o cientista social reconhecer a sua responsabilidade.

PESQUISA SOBRE MAIORIES E MINORIAS

Não foi intenção deste artigo discutir resultados pormenorizados da pesquisa social em relações intergrupais.  Todavia, acho que devo mencionar dois pontos que, a meu ver, exemplificam aspectos básicos.

As relações intergrupais constituem uma questão biunívoca.  Isto quer dizer que, para melhorar as relações entre grupos, os dois grupos em interação têm de ser estudados.

Nos últimos anos, começamos a compreender que os chamados problemas de minoria são, de fato, problemas de maioria, que o problema do negro é o problema do branco, que o problema judeu é o problema do não-judeu, e assim por diante.  É também verdade, claro está, que as relações intergrupais não podem ser resolvidas sem alterar certos aspectos de conduta e do sentimento do grupo minoritário.  Um dos obstáculos mais sérios ao melhoramento parece ser a notória falta de confiança e de amor próprio da maioria dos grupos minoritários.  Estes tendem a aceitar o julgamento implícito dos que têm status, mesmo quando o julgamento se volte contra eles próprios.  Há muitas forças que tendem a desenvolver nas crianças, nos adolescentes e nos adultos de minorias profundos antagonismos contra seu próprio grupo.  Segue-se um elevado grau de submissão, culpa, emotividade e outras causas e formas de comportamento ineficaz.  Nenhum indivíduo, nenhum grupo em luta contra si mesmo pode viver de maneira normal ou feliz com outros grupos.

O cientista social deve ter consciência de que é inútil enfrentar este problema proporcionando suficiente amor próprio a membros individuais dos grupos minoritários.  A discriminação que estes indivíduos sentem não se volta contra eles como indivíduos, mas como membros do grupo e a questão só pde ser tratada elevando-se até o nível normal seu amor-próprio como membros do grupo.

Muitos brancos do Sul dos Estados Unidos parecem compreender que uma condição prévia para o progresso é o aumento do amor-próprio do negro sulino.  De outro lado, parece ser paradoxal para muitos liberais a idéia de um programa positivo de lealdades crescentes de grupo.  Parece que nos habituamos a ligar ao chauvinismo a questão da lealdade de grupo e o amor-próprio de grupo à xenofobia.

A meu ver, a solução só pode ser encontrada por via de um desenvolvimento que eleve o nível geral do amor-próprio e da lealdade de grupo, os quais são em si mesmo fenômenos perfeitamente naturais e necessários, ao mesmo nível, para todos os grupos da sociedade.

Isto significa que se deve fazer todo o esforço para reduzir o inflado amor-próprio dos que o têm ao nível de 100 por cento.  Estes deveriam aprender a prece da peça musical Oklahoma: "Meu Deus, fazei-me ver que não sou melhor que os meus semelhantes".  Todavia, é essencial aprender a segunda parte da prece, que diz algo assim: "mas, em tudo, sou tão bom quanto ele".  Com base nas experiências de até agora, acho que a elevação do amor-próprio dos grupos minoritários é um dos meios mais estratégicos para o aperfeiçoamento das relações intergrupais.

O último ponto que eu gostaria de mencionar refere-se à relação entre os cenários local, nacional e internacional.  Ninguém que trabalhe no campo das relações intergrupais pode deixar de ver que vivemos hoje num mundo só.  Quer ele se torne politicamente um mundo só ou dois mundos, não há dúvida de que, no que respeita à interdependência dos acontecimentos, vivemos num mundo só.  Quer pensemos nos católicos ou nos judeus, nos gregos ou nos negros, todos os grupos dentro dos Estados Unidos são profundamente atingidos pelos acontecimentos de outros lugares do globo.  Nos Estados Unidos, as relações intergrupais serão formadas em grande parte pelos fatos do cenário internacional e particularmente pelo destino dos povos coloniais.  Será decisivo o fato de a política dos Estados Unidos seguir ou não o que Raymond Kennedy chamou de política internacional de Jim Crow dos impérios coloniais.  Estaremos prontos a desistir da política seguida nas Filipinas e, no que se refere às possessões dos Estados Unidos, voltar à política de exploração que tornou o imperialismo colonial a instituição mais odiada no mundo inteiro?  Ou seguiremos a filosofia que John Collier desenvolveu para com os índios americanos e que o Instituto de Questões Étnicas está propondo para as possessões dos Estados Unidos?  Trata-se de um padrão que conduz gradualmente à independência, à igualdade e à cooperação.  Qualquer que seja o resultado de uma política de exploração permanente no cenário internacional, ela não pode deixar de ter uma profunda repercussão sobre a situação interna dos Estados Unidos.  O Jim-Crowismo no cenário internacional dificultaria enormemente o progresso das relações intergrupais dentro dos Estados Unidos e tem a probabilidade de por em perigo todos os aspectos da democracia.

O desenvolvimento de relações intergrupais está indubitavelmente cheio de perigos e, neste campo, o desenvolvimento da ciência social enfrenta muitos obstáculos.  O quadro que pude pintar, entretanto, do progresso da pesquisa e particularmente do progresso que a organização da pesquisa social realizou nos últimos anos, faz-me sentir que aprendemos muito.  Um esforço em grande escala de pesquisa social sobre relações intergrupais seria indubitavelmente capaz de ter consequências duradouras na história dos Estados Unidos.

Está igualmente claro, todavia, que esse trabalho exige dos cientistas sociais a máxima coragem.  É mister a coragem que Platão definiu como: "sabedoria diante do perigo".  É mister o melhor que possam dar os melhores de nós, e a ajuda de todos. 


EXIT  / SALIDA
ii 2016
xi 2013

vi 1999